Em Cima do ilhéu
Falamos do Ilhéu de Cima, também conhecido por Ilhéu do Farol e, em tempos idos, como Ilhéu do Dragoeiro. No entanto, poucos tiveram oportunidade de o visitar. Nós já o tivemos mais que uma vez. Uma delas foi este Verão. Outra aconteceu há mais anos, numa altura em estavam a aparecer marroquinos pelo arquipélago. E, o farol do Ilhéu de Cima terá sido um dos lugares por onde passaram alguns.
A ilha que conhecemos então é a mesma, mas as condições para proporcionar visitas são muito diferentes. Tudo fruto de uma recuperação que visa a conservação da biodiversidade existente e, precisamente, a preparação para visitas abertas que decorreram este verão, organizadas, para quem lá quisesse ir. Visitas pelos locais, numa perspectiva de educação ambiental, e igualmente dos turistas, numa óptica de turismo da natureza.
Na base de tudo estão os objectivos de recuperação dos habitats e espécies da Rede Natura 2000 “Ilhéus do Porto Santo”.
No fundo, pretende-se a recuperação da biodiversidade da flora e da fauna na área terrestre dos seis ilhéus do Porto Santo: Ilhéu da Cal, Ilhéu do Farol, Ilhéu de Ferro, Ilhéu da Fonte da Areia, Ilhéu das Cenouras e Ilhéu de Fora.
A longo prazo, o projecto pretende que os ecossistemas dos ilhéus do Porto Santo, bem como a sua área marinha circundante, atinjam um estado de conservação estável, favorável e auto-sustentado.
O programa iniciou-se em Setembro de 2010 e termina em Agosto de 2014.
No caso concreto do Ilhéu de Cima, foram desenvolvidos diversos trabalhos por colaboradores do Parque Natural da Madeira no sentido de o fazer “regressar ao passado”. Isto porque ali viveram famílias e, segundo o director do Parque Natural da Madeira, “houve um certo uso desregrado destas áreas importantíssimas da biodiversidade da Macaquearia, para além de haver coelhos e plantas invasoras”. Paulo Oliveira acentua que o Projecto Life Porto Santo visa inverter esse processo, eliminando o máximo possível as fontes de ameaça de forma a permitir a recuperação destes habitats.
Paralelamente, está a ser feito levantamentos intensivos de tudo o que existe nos ilhéus, em parceria com a Direcção Regional de Florestas, da Direcção Regional do Plano e ainda com a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.
As visitas começaram precisamente pelo Ilhéu de Cima. Para esse efeito, foi criado um percurso interpretativo simples, relativamente pequeno, ao longo do qual está descrita toda a envolvente e explicação, culminando com um centro de recepção ou área de exposição na zona do Farol. Além disso, a limitação de percursos tem também o objectivo das pessoas não entrarem nas áreas mais sensíveis, compatibilizando-se dessa forma a conservação e a visitação.
Sublinhe-se que a Marinha é parceira do Parque Natural da Madeira neste projecto que inclui o farol. Um farol que passa por manutenção com uma média de uma vez por mês, segundo refere o Patrão Mor, Rocha Jacinto, da Capitania do Porto de Porto Santo. Não obstante confidencia que a Marinha vai mais amiúde ver se tudo está normal.
Foi precisamente a Marinha que participou este ano nas Comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, e, nesse âmbito, possibilitou a visita a diversos faróis do País. O do Ilhéu de Cima não foi excepção.
O Ilhéu de Cima
O ponto mais alto do Ilhéu de Cima situa-se a 124 metros acima do nível médio do mar.
Na sua essência, é um ilhéu rochoso, com uma área de 32 hectares (igual número de campos de futebol), cobertos por arbustos e flora costeira da Macaronésia. Por esta razão se encontra protegido pelo Parque Natural da Madeira e pela Rede Natura 2000.
Em relação ao farol, o ícone da ilha, começou a funcionar em 1901. Tem a particularidade de ser o primeiro farol para as embarcações provenientes do continente europeu.
O farol tem uma torre quadrangular branca de 15 metros e um edifício anexo. Apresenta um pedestal rotativo, com luz branca.
Atente-se que, apesar das várias tentativas feitas anteriormente, sem resultados apreciáveis, a construção de faróis modernos na Madeira e no Porto Santo só acontece na segunda metade do século XIX.
O primeiro surge no extremo leste da ilha, na Ponta de São Lourenço. Ali é instalada uma torre sinalizadora no mais mais elevado. Estamos em 1870.
Mais tarde, seria a vez do Porto Santo, concretamente no Ilhéu de Cima.
Posteriormente, é feita nova aposta na ilha da Madeira . Em 1922 surge o farol da Ponta do Pargo, no extremo oeste.
Anos mais tarde, em 1959, entra em funcionamento o de São Jorge, porventura o menos conhecido, situado na freguesia com o mesmo nome, sensivelmente a meio da costa norte da ilha.
Planos antigos para o farol
O Plano Geral de Alumiamento e Balizagem de 1883 contemplava a construção de um Farol em Porto Santo, situado na ponta do Ilhéu Branco, que deveria ser equipado de um aparelho de 2ª ordem, produzindo grupos de dois clarões brancos e um vermelho, com 24,5 milhas de alcance em estado médio.
Segundo o parecer colhido no Porto Santo e de alguns comandantes de paquetes pertencentes a companhias de navegação para o Cabo da Boa Esperança, América do Sul e outras cujos vapores fazem escala no porto do Funchal, o lugar mais indicado para a edificação do farol seria o ilhéu de Cima.
Em 1923, o edifício do farol foi ampliado, a fim de dispor de habitação para cinco faroleiros e depósito de petróleo e de sobressalentes. Dois anos depois, o aparelho viria a ser substituído por outro da mesma ordem, mas aero-marítimo, que garante um alcance luminoso de 27 milhas.
No ano de 1935 o sistema iluminante, até aí constituído por um candeeiro de petróleo, passou a ser de incandescência pelo vapor de petróleo.
Foi electrificado em 1956, passando a utilizar como fonte luminosa uma lâmpada eléctrica, aumentando assim o seu alcance luminoso para 46 milhas.
Em 1982 o sistema iluminante foi completamente remodelado, substituindo a antiga óptica lenticular de Fresnel por um equipamento moderno, que incorpora todos os sistemas alternativos e garante a sua entrada em funcionamento em caso de falha.
A infografia do Expresso, da autoria de Carlos Esteves e Jaime Figueiredo, que publicamos neste trabalho, complementa o que escrevemos e o que as fotografias evidenciam.
O que diz o Elucidário Madeirense
Segundo o padre Fernando Augusto da Silva, no “Elucidário Madeirense”, depois do farol de S. Lourenço, na ilha da Madeira, sempre se reconheceu como de primeira e mais urgente necessidade a construção dum farol na ilha do Porto Santo.
Recorda a publicação que a falta de iluminação daquelas costas ocasionou vários desastres, com perda de vidas e embarcações, de que fazem menção os Anais daquela ilha.
Realizaram-se alguns estudos e organizaram-se projectos e orçamentos, mas só décadas mais tarde é que o farol do Porto Santo principiou a iluminar aquelas paragens.
“Tem prestado relevantes serviços á navegação e em especial ás embarcações que demarcavam o porto do Funchal”.
Uma nota final para referir que será possível voltar a visitar o ilhéu e o farol hoje, amanhã e depois.
As visitas estão previstas entre as 9 e as 11.30 horas e entre 14 e as 17 horas.
Os contactos são 291980070 e capitania.psanto@marinha.pt.
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