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O peso da sombra do Alojamento Local


A revolução digital transformou a forma como se viaja e se faz turismo. Plataformas como Airbnb e Booking popularizaram o alojamento local, convertendo lares em unidades turísticas e moradores em anfitriões. À superfície, esta tendência parece uma democratização da economia: mais opções, preços variáveis e distribuição direta de rendimentos. No entanto, o fenómeno cresceu sem controlo em muitos destinos, provocando uma autêntica reconfiguração urbana e social.  

Paulo Camacho

Cidades como Barcelona, Veneza, Lisboa, Amesterdão ou Florença enfrentam já os efeitos da saturação turística. Em Barcelona, cerca de ⅖ das casas vendidas em 2024 destinaram-se exclusivamente a alojamento turístico; em Lisboa, as rendas aumentaram drasticamente em cinco anos, e os moradores foram empurrados para a periferia. 


Veneza, com menos de 50 mil habitantes permanentes, cobra agora uma taxa de entrada aos visitantes ocasionais. Estes casos refletem um dilema comum: o turismo que gera riqueza é o mesmo que ameaça a autenticidade dos lugares que a sustentam.  


A Madeira a repetir o padrão  


Na Madeira, este fenómeno repete-se a um ritmo acelerado.

Enquanto a hotelaria — pilar histórico do turismo madeirense — continua sujeita a requisitos rigorosos de licenciamento, impacto ambiental e ordenamento territorial, o alojamento local tem-se expandido quase sem controlo. Ou melhor, não há um controlo global e sim deixado ao livre arbítrio das câmaras municipais, a exemplo do resto do país. Este modelo fragmentado deixou de ser um complemento à oferta turística para se tornar, em muitos casos, uma concorrência desleal e desregulada.   E, na Madeira, os receios de viajar durante a pandemia da Covid-19 abriram literalmente as portas à opção do Alojamento Local devido ao receio de contágios que se ventilava ser mais propícios nas unidades hoteleiras tradicionais, apesar do cuidado que tiveram desde a primeira hora na prevenção para evitar isso mesmo, o que, diga-se em abono da verdade, aconteceu na Região Autónoma.


O paradoxo de “Madeira. Tão tua”  


A imagem promocional da ilha — “Madeira. Tão tua” — apela à autenticidade, à hospitalidade e à pertença. Mas esta promessa começa a perder sentido quando a massificação ameaça exatamente aquilo que a distingue. Não há “Madeira. Tão tua” se a ilha se tornar “de todos e de ninguém”, um destino saturado, onde o visitante já não encontra a calma, a harmonia e a genuinidade madeirense.  


A corrida desenfreada ao alojamento local está a transformar o Funchal e outros concelhos, como a Calheta. 

O comércio tradicional é substituído por serviços de curta duração, as rendas disparam e as famílias madeirenses são empurradas para as periferias. Em muitos prédios, já não há quem viva todo o ano; há apenas check-ins, chaves em cofres, códigos digitais e bagagens a qualquer hora.  


A diferença invisível: o papel do controlo e da hospitalidade  


Há uma diferença que raramente se menciona, mas que é essencial para um destino de pequena escala como a Madeira: o controlo do comportamento e da experiência do cliente.  

Nos hotéis e resorts, os colaboradores — desde a receção ao serviço de quartos — exercem uma mediação discreta mas fundamental. Garantem regras, evitam excessos, mediam conflitos e asseguram o respeito pelas normas locais. Essa presença humana permite uma seletividade positiva: o visitante que escolhe uma unidade hoteleira faz parte de um perfil que valoriza o cuidado, a qualidade e a convivência civilizada.  


No alojamento local, essa dimensão desaparece. Não há controlo, nem acompanhamento, nem filtro. O hóspede pode ser cuidadoso — ou destrutivo; atento — ou indiferente ao sossego dos vizinhos. Essa ausência de intermediação fragiliza a convivência e multiplica conflitos, tornando destinos pequenos e sensíveis como a Madeira mais vulneráveis ao impacto do turismo de massas e ao desgaste da sua imagem.  


Descontrolo e desigualdade na concorrência  


O contraste entre o rigor da hotelaria e a liberdade quase total do alojamento local é gritante. O Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma da Madeira estabelece critérios exigentes para novas unidades hoteleiras, e também pretende regular o alojamento local, mas há alguma ambiguidade nos parâmetros que abrem caminho ao seu crescimento desmesurado.


Daí os riscos reais de perder o equilíbrio entre quantidade e qualidade, base essencial da atratividade madeirense.  


Outros destinos já reagiram. Lisboa e Porto criaram zonas de contenção; Amesterdão e Paris limitaram o arrendamento turístico por ano; Florença congelou novos registos no centro histórico. 

A Madeira começa a seguir esse caminho, mas o atraso na regulação pode custar caro.  


Preservar a identidade antes de a perder  


O turismo é — e deve continuar a ser — um motor económico essencial. Mas o crescimento descontrolado do alojamento local ameaça transformar a força em fraqueza. Quando o visitante substitui o residente e a convivência se perde, a economia pode continuar a crescer, mas a alma do destino começa a desaparecer.  


Regular não é travar — é preservar. Se a marca “Madeira. Tão tua” quiser continuar autêntica, tem de garantir que a ilha permanece, antes de tudo, dos madeirenses. Uma terra só é “tua” quando continua viva, habitada e respeitada por quem nela vive e por quem a visita.  


Que Madeira queremos amanhã?  


O tempo de decidir é agora. A Região precisa de medidas concretas e firmes para equilibrar o turismo e proteger o futuro:  

- Limitar novas licenças de alojamento local por freguesia, privilegiando a reabilitação habitacional permanente.  

- Criar zonas de contenção efetivas e suspensões temporárias de registos em áreas saturadas do Funchal.  

- Reforçar a fiscalização e penalizar unidades sem cumprimento fiscal ou de segurança.  

- Incentivar a oferta de arrendamento de longa duração, com benefícios fiscais para proprietários que devolvam casas ao mercado habitacional.  

- Valorizar a hotelaria tradicional como garante de qualidade, profissionalismo e controlo da experiência turística.  

- Promover uma educação turística cívica, tanto para quem acolhe como para quem visita — porque hospitalidade também é responsabilidade.  


A “Madeira. Tão tua” tem de ser mais do que um slogan. Tem de ser um compromisso — com a identidade, com o território e com quem aqui vive todo o ano. Uma ilha pode receber o mundo, sim, mas não pode perder-se a si própria no processo.  


O ano de 2025 confirma que o AL já não é uma alternativa, mas sim um pilar estruturante. Em termos práticos, em cada 10 turistas que dormem na Madeira, mais de 3 escolhem o Alojamento Local. Esta dinâmica tem sido fundamental para o recorde regional de cerca de 12,8 milhões de dormidas totais e os 2,4 milhões de hóspedes entrados no decorrer do último ano completo.

No ano referido, só o Alojamento Local registou 3,8 milhões de dormidas e 782 mil hóspedes entrados.


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