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Confeitaria Felisberta reabre sem história


A Felisberta
, finalmente reabriu. Ressurgiu das cinzas que o grande incêndio a relegou para um quadro ainda mais degradante do que vinha a conhecer até então.

Paulo Camacho

Eram muitas as minhas memórias e das pessoas com quem falava do tema Felisberta ao longo dos anos. As cornucópias e outros bolos eram recordados e saboreados virtualmentecom saudade.
Por isso, era grande a expetativa para reentrar, de novo, na Felisberta este ano. 

Passadas algumas semanas desse momento, visitei o espaço que fotografei ao longo dos anos. A ideia da Felisberta continuava guardada na memória. Era forte a curiosidade por poder mergulhar na história.
Pois, era tão intensa que tive de segurar o queixo para não o perder, mal entrei.
Não por estar a reviver, mas pela enorme deceção. Jamais vira nada daquilo. 

O chão, agradavelmente recuperado de um tempo que não conheci, em pedra, assim como o forno revelado, que anteriormente se encontrava atrás da parede do fundo, dão a sensação falsa da sua história. Contudo, nada da Felisberta que conheci. 


Procurei o mobiliário mais icónico da confeitaria, o armário branco que estava a meio, e que o encontrávamos logo à entrada. Ainda recordo aquele tempo em levantávamos as portas inclinadas e escolhíamos o bolo. Claro que esse método,  hoje, não seria muito exequível tanto a nível sanitário como no controlo adequado do pagamento do consumido.
No seu lugar estavam mesas e cadeiras elegantes, e na parede, estantes com gosto, mas nada de Felisberta.

Olhei bem para todo lado, a ver se estava noutro lugar.
Para surpresa minha, lá ao fundo, num corredor estreito que leva ao referido fogão de pedra, estavam dois pequenos armários, que mais pareciam terem sido feitas para brincadeiras de crianças com bonecas. 

A inspiração está lá, mas, até o que a original representava vai uma distância do tamanho do mundo. 
Agora tem broas.

Nestas coisas, se queremos alicerçar projetos na história desde a fundação não há que inventar. É preciso respeitar a matriz, e, evidentemente, adaptar algum histórico aos novos tempos. Se assim não for, nada tem a ver com o legado que o nome guarda. Será apenas uma marca de um espaço comercial que ainda reside na memória de algumas pessoas. Nada mais que isso.

A autenticidade que diferencia, que carrega a história, não se compra nem se inventa.

A Confeitaria Felisberta


Situada na Rua das Pretas, no Funchal, A Felisberta tem um percurso que atravessa quase dois séculos, desde o seu apogeu como símbolo da pastelaria madeirense até à sua recente reabilitação.

Foi fundada por Felisberta Rosa.
Embora algumas fontes refiram o ano de 1837, a data de fundação frequentemente associada ao estabelecimento é 1857.

Em 1926, o negócio passou por uma importante renovação, introduzindo uma sala de chá que se tornou um ponto de encontro para a sociedade funchalense e para visitantes estrangeiros.
A sua fama era tal que atraiu figuras como a Imperatriz Sissi da Áustria, que na sua última visita à ilha se informou especificamente se a confeitaria e a sua proprietária ainda existiam.

Ficou marcada na memória coletiva pelo referido emblemático armário central, onde os clientes podiam levantar a tampa para retirar os bolos.
Contudo, devido a dificuldades no negócio, a confeitaria encerrou as suas portas em 1982.

O edifício permaneceu ao abandono durante décadas, degradando-se progressivamente. Até que, em agosto de 2016, os graves incêndios que atingiram o Funchal destruíram grande parte da estrutura, deixando apenas as paredes exteriores de pé.


Depois de avanços e recuos, a Câmara Municipal do Funchal adquiriu o imóvel devido ao seu valor histórico e procedeu à reconstrução.
Assim, após décadas de inércia, a Confeitaria Felisberta reabriu oficialmente a 9 de fevereiro de 2026.

Atualmente, o espaço é explorado pelo Grupo Confeitaria sob concessão.
Além do serviço de cafetaria e pastelaria, o 1.° andar do edifício acolhe um espaço museológico dedicado à história e ao fabrico do Bolo de Mel, celebrando a tradição gastronómica da Madeira. Uma vertente que nada tem a ver com a Felisberta. São ideias que não combinam.

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