Últimas notícias

Igreja de São Jorge continua em degradação


A Igreja Matriz de São Jorge, expoente máximo do barroco madeirense, vive um momento de dualidade: enquanto o seu museu se prepara para receber relíquias históricas do Cardeal Teodósio de Gouveia, o edifício principal lança um grito de alerta devido a infiltrações e degradação estrutural.

Ao JM, o pároco Ricardo Freitas não esconde a preocupação. Apesar da beleza das pinturas e das talhas douradas que continuam a impressionar quem visita o templo, os sinais de desgaste são evidentes. "É uma situação preocupante", afirma o sacerdote, apontando para:

Humidade persistente na fachada principal e cantaria;

Degradação do teto por baixo do coro devido a infiltrações de água;

Necessidade de restauro urgente nos altares e em peças artísticas como o Ecce Homo.

O levantamento técnico já foi concluído pela Direção Regional de Cultura (DRC) e o caderno de encargos está pronto. A intervenção, orçada em cerca de 308 mil euros, aguarda agora a viabilização do financiamento para travar uma degradação que avança "silenciosamente sobre um dos tesouros religiosos da Madeira".

Legado do cardeal

A par do esforço de conservação, o espólio do museu anexo à igreja — que já conta com peças de ourivesaria e paramentos do século XVIII — será brevemente enriquecido. Estão a ser preparados para exposição objetos pessoais do Cardeal Teodósio de Gouveia, natural de São Jorge e antigo Arcebispo de Lourenço Marques.

Entre as peças doadas pela família do prelado, destacam-se o solideu e o tricórnio, acessórios episcopais de grande valor histórico e um retrato do Cardeal, que ficará junto à pia batismal onde foi batizado a 25 de maio de 1898.

Apelo à identidade local

Embora o museu seja um ponto de paragem frequente para turistas estrangeiros, o padre Ricardo Freitas reforça o apelo à comunidade local. 

O objetivo é que a Igreja de São Jorge não seja apenas um depósito de relíquias, mas um símbolo da identidade local, unindo a fé, o património e a memória coletiva de um povo que, desde o século XV, mantém viva a devoção naquele local.

A concretização das obras de restauro é vista como o passo decisivo para garantir que este legado de 1761 continue a ser transmitido às gerações vindouras com a dignidade que o seu valor arquitetónico exige.

Sem comentários