Miguel de Sousa defende 2 soluções para o aeroporto: Uma imediata e outra com projeto inovador
Miguel de Sousa voltou a escrever o artigo de opinião no Diário de Notícias. Como sempre, certeiro na abordagem, neste caso concreto, da premente necessidade de um novo aeroporto.
Escreve assim:
O primeiro de Abril é uma tradição muito madeirense. Obviamente que o primeiro dia de Abril proporciona uma catadupa de asneiras a ver qual a mais irritante de coar. O dia em que tudo é bem aceite. Ninguém se ofende.
O Diário pretendeu “inventar” com imaginação e, vai daí, como todos os anos, publica notícia “falsa”, desta vez anunciando um aeroporto da Madeira no mar. Com isso propôs solução para um dos maiores problemas da Ilha.
O desconhecimento de factos passados justifica a escolha da peta. Claro que o jornalista Roberto Ferreira, promotor da peta, quis sugerir algo que parece, à primeira vista, impossível de se realizar e sugere estarem a ser realizados estudos para um aeroporto no mar da Madeira. Naturalmente que considera algo não realizável e, assim, julga uma boa piada para Abril. Ainda pode invocar não estar a negar um projeto desse tipo mas, simplesmente, a “mentir” sobre o governo estar a fazer estudos para esse fim.
A verdade é que não foram feitos estudos mas foi dado como hipótese.
O estudo para uma pista intercontinental, como a chamávamos, que resolvesse as limitações de comprimento da pista de Santa Catarina foi realizado pela British Airports a partir de 1979. Seguiu-se a uma deliberação do governo nacional decorrente da insistência presidencial do general Ramalho Eanes. O acidente letal da TAP era o motor da iniciativa. Acompanhei isso desde o início, primeiro como Diretor Regional de Transportes e, depois, como Secretário Regional.
Desse estudo resultaram 14 alternativas à ampliação da pista existente. Uma 15.ª, defendida pelo primeiro-ministro da República, general Lino Miguel, pretendia a utilização de Porto Santo para aviões de grande porte, com shuttle aéreo eficiente para a Madeira. A pista de Santa Cruz manter-se-ia inferior a dois mil metros.
Para aviões grandes os dois aeroportos eram complementares. Nas muitas horas de trabalho, em Londres e Funchal, a British Airport apresentava as soluções que ia descobrindo. Posso revelar que a melhor pista possível seria em São Martinho, na área que passa pelo cemitério e bairro da Nazaré. Sem grande construção na época, estar na melhor zona de expansão da Cidade e o ruído que faria sobre o seu lado nascente afastou a hipótese. As demais treze eram variadas e por toda a Ilha.
Acontece que o trabalho da British Airports era inventariar possíveis localizações, somente considerando o ponto de vista operacional. Onde desse para construir uma pista operacional era indicado pelos ingleses. Se não era razoável, do ponto de vista ocupacional ou ambiental, não lhes cabia excluir. Muitas das eventuais soluções eram condicionadas pela ocupação residencial e económica do local. Acrescia os absurdos custos da obra para muitos locais, com relevo para as expropriações e o acesso rodoviário entre o local e o Funchal. Estávamos no arranque da década de oitenta e as acessibilidades eram nulas.
Depois veio o comandante Turcat e a Aerospace (Airbus) avaliar os cenários operacionais e técnicos das alternativas. Estive em Toulouse nos ensaios simulados realizados. E aí que recai a preferência pela ampliação do aeroporto de Santa Catarina, que encontra no prof. Edgar Cardoso, criador da obra em pilares e tabuleiro de betão, fervoroso adepto desta solução. Era a sua especialidade.
A questão financeira torna-se decisiva pois não havia vontade do governo nacional em financiar ou obter apoio europeu. Veio Cavaco Silva e lá se fez um mau acordo mas sempre permitiu a obra.
Sobre ventos não há qualquer aviso operacionalmente limitativo ou inibidor da solução. A questão financeira foi determinante. Mas este escrito foi motivado pela “peta” de aeroporto no mar. A história é a seguinte: a British Airports quando entrega o relatório final diz off the record que porventura uma boa solução seria derrubar o Cabo Girão e terraplanar uma pista no mar. Ainda hoje recordo a expressão de inglês a anunciar a hipótese. Implicava muitos estudos, cálculo de aterros necessários e produção de inertes suficientes, debate público imprescindível e muitas outras avaliações a realizar. Mas para eles técnicos era a solução. Implicava muitos anos de estudo e aprovação, podendo ser recusada como não aceitável. A urgência de ter uma pista intercontinental superou tudo.
Sem esquecer que a hipótese no mar não constava em qualquer registo de trabalho.
Pelas razões antes mencionadas tudo conduziu à primeira alternativa: extensão da pista existente. Como aconteceu.
Só que entretanto, pelas circunstâncias operacionais que conhecemos, ficamos com trabalho a fazer: ter pista operacional, sem as limitações atuais, pois não é possível pensar, em toda a história futura, a Madeira viver com este constrangimento. Precisamos encontrar solução. Temos tempo para estudar. O mundo vai encontrando saída para tudo. Melhor dizendo, duas soluções. Uma imediata, que deve envolver Porto Santo, e outra, assim que possível, com projeto inovador na Ilha da Madeira.
Claro que não parece razoável a solução do Cabo Girão. Mas, na costa norte, onde as profundidades do mar são muito menores e o vento predominante, norte, vem do mar, sem a turbulência das montanhas e dos vales da Ilha, talvez, num tempo não muito longínquo, se possa encarar uma solução idêntica a Osaka ou Génova, entre outras. Com vento enfiado na direção da pista.
O vento não é um problema complicado. Las Palmas é super ventosa, podendo ver-se mais de mil ventoinhas eólicas a produzir energia no enfiamento da pista. Na Madeira a turbulência cruzada com a pista é o monstro a transpor. Vento constante bem direcionado não é possível em Santa Cruz. O vento predominante é norte quer de este como de oeste. Cruza a pista com violência e descontrola o avião. Julgo que, para já, nos dias com vento fora dos limites, a melhor solução é ter uma operação marítima eficaz entre Madeira e Porto Santo. Nesses dias, para mim, o Porto Santo é boa escapatória, mas percebo que condiciona os turistas, as companhias e toda a logística envolvida. E o mar às vezes é intransponível. No entanto, parece ser a melhor das soluções provisórias para uma boa parte da operação não possível realizar em Santa Cruz.
É preciso inventariar planos e custos para aceitar ou recusar solução. Decidir até que ponto o negócio do turismo justifica os investimentos, sabendo que não há alternativa económica rentável. Garanti-lo é vir a custar muito dinheiro, mas não estou vendo substituirmos o turismo pela indústria ou agricultura. Por mais elogios que lhes façamos.
Como não vejo atualmente qualquer investimento, estrangeiro ou madeirense, na hotelaria. O crescimento tem acontecido no AL. Todo o desenvolvimento económico atual é alojamento local. Com este aeroporto o investimento em novos hotéis será pouco ou nenhum.
E alguém acha que devemos parar? Estagnar, ao invés de todo o mundo? Emigrar novamente?
Secretário Regional Transportes precisa-se
Cada presidente faz o seu governo. Mas, não posso deixar de repetir que a Região Autónoma precisa de um Secretário Regional dos Transportes. É tarefa crucial na governação. Como nenhum outro sector. Mesmo nenhum. Vejam a complexidade dos temas pendentes. Não dá para estar distraído com questões ambientais, eventos culturais, assuntos de economia inconsequentes, “chinerices”, ou tarefas complexas no tratamento do território. Qualquer um dos três atuais titulares da área dos transportes pode assumir essa responsabilidade em exclusivo. Mas deve ser um. Contestar todos os interesses em jogo não meias diretas por aldeias.
Recordo que Alberto João Jardim, no seu primeiro governo, era ele o titular das pastas dos transportes e de turismo. Já então visualizava a importância destas duas áreas. Antes, antes de eu ser Secretário Regional dos Transportes, foi seu Diretor Regional dos Transportes. E o eng. Ribeiro de Andrade, Diretor Regional de Turismo.

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