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Preços das viagens para Lisboa sempre escaldaram


As história dos tetos e não tetos no 'Mecanismo de Continuidade Territorial' (MCT) para as viagens de avião entre a Madeira e Lisboa ou Porto, deve ser encarada com justiça, sem demagogias. Não foi a eliminação do teto que fez disparar preços, porque antes também existiam, com a agravante de que, acima dos 400€ o passageiro arcava com o valor sobrante.
Ou seja, desde 1 de setembro de 2015, com a entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 134/2015 e da Portaria n.º 260-C/2015, que criou o Subsídio Social de Mobilidade (SSM), o custo máximo suportado pelo residente na Madeira nas ligações de ida e volta com o continente fixava-se em 86 euros. Até 400€ o Estado assumia, mas qualquer euro a mais desse teto, chapéu. 
Este rol de gente a remar contra o MCT levou-nos a pesquisar e atestar que não basta dizer mal e que agora está pior que nunca. Porque não é assim.
Os números não escondem quando se olha para a evolução ao longo dos anos.
Para termos uma ideia, antes da entrada em vigor do SSM, em 2014, uma viagem de ida e volta entre a Madeira e Lisboa tinha como referência institucional cerca de 531€. Era já um valor muito elevado para uma deslocação dentro do território nacional, sobretudo quando comparado com o custo de muitas ligações aéreas entre cidades continentais.

2015

E eis que, em 2015, o ano da chegada do SSM (a 1 de setembro), e começam a surgir casos ainda mais significativos. 
Para viagens de Natal, foram registados valores na ordem dos 650€, havendo situações em que uma simulação posterior chegou aos 742€ por uma viagem entre a Madeira e Lisboa. 
No ano seguinte, os preços continuaram a revelar uma enorme discrepância. 
Em pleno período de Natal e Ano Novo, encontravam-se viagens de ida e volta na ordem dos 500€, com casos reportados de aproximadamente 560€ na 'TAP' e mais de 500€ na 'easyJet'. 
A distância entre Madeira e Lisboa, de cerca de 970 quilómetros, continuava a ser transformada numa viagem de centenas de euros.

2017

Em 2017, o valor de referência para uma viagem semanal de ida e volta rondava os 500€. Apesar de existirem, pontualmente, tarifas promocionais bastante inferiores, a questão essencial permanecia: fora das promoções e em períodos de maior procura, viajar entre a Madeira e o continente continuava a poder representar uma despesa extraordinariamente elevada.
Um ano depois, em 2018, a polémica subiu de tom. Foram publicamente apontados valores superiores a 600€ para uma viagem entre a Madeira e Lisboa. A discussão sobre os preços deixou de ser apenas uma questão de consumidores confrontados com tarifas elevadas e passou a assumir uma dimensão política e institucional.

2019

Em 2019, voltaram a ser apontados valores entre 500 e 600 euros para a ligação Madeira-Lisboa, particularmente em períodos de grande procura. 

2020


Em 2020, apesar da pandemia e da quebra brutal do tráfego aéreo, os preços continuaram a suscitar indignação. Para a Páscoa foram identificadas tarifas que chegavam aos 565€. Mais tarde, para o Natal, foram registados valores superiores a 600€ para viajar entre Lisboa e a Madeira.
Num momento em que a mobilidade estava fortemente condicionada e a economia sofria uma das maiores crises das últimas décadas, continuavam a surgir preços de centenas de euros para uma viagem entre a Madeira e o continente.
Em 2021, voltaram a ser referidos valores entre 600 e 700 euros para uma viagem de ida e volta Madeira-Lisboa.
Em 2022, surgiram novamente relatos de viagens de ida e volta que ultrapassavam os 700€. 

2023

Em 2023, os números voltaram a ser particularmente esclarecedores. Simulações para a Páscoa encontraram tarifas de ida e volta que chegavam aos 784€. No Natal, foram identificadas tarifas da 'TAP' na ordem dos 515€, enquanto outras companhias apresentavam valores próximos dos 500€.
Isto significa que, mesmo com a entrada e consolidação de diferentes companhias aéreas na rota, a concorrência não impediu que os preços atingissem valores muito elevados.
E eis que chegamos a 2024.
Naquela ano, registou-se alguma moderação relativamente aos casos mais extremos. Para o Natal foram encontradas viagens de ida e volta por cerca de 400€ em algumas companhias. 
Continuava a haver uma enorme diferença entre os preços promocionais e aquilo que um passageiro podia encontrar quando precisava de viajar numa determinada data.

2025

Em 2025, no final do ano, os números voltaram a atingir níveis particularmente impressionantes. Foram identificadas tarifas de mais de 800€ ida e volta. 
Noutras simulações para a época de Natal surgiram igualmente valores superiores a 500 e 600 euros para viagens de ida e volta, dependendo das datas e das condições da tarifa.
Estamos, assim, perante uma década de números que não permite tratar o problema como um episódio isolado.
É certo que os preços dos bilhetes de avião variam em função da antecedência da compra, da época do ano, da ocupação dos aviões, da procura, do tipo de tarifa e da disponibilidade. 
Mas, quem vive numa ilha não escolhe a data em que precisa de viajar.
Uma pessoa que tenha de ir ao continente por motivos familiares, profissionais, estudantis, médicos ou outros, não pode esperar por uma promoção, escolher o dia mais barato ou alterar a viagem para uma data de menor procura. Tem de sujeitar-se.
Ao invés, para quem reside no continente, uma viagem de avião entre Lisboa e Porto pode ser substituída por comboio, autocarro ou automóvel. Contudo, para quem vive na Madeira, não existe essa alternativa terrestre. Só pode fazê-lo de avião, pelo que o avião não é um luxo, é a ligação física, umbilical, com o resto do país.
E é essa caraterística que torna particularmente difícil aceitar que, repetidamente, uma viagem entre a Madeira e Lisboa possa custar 500, 600, 700 ou até mais de 800 euros, dependendo das circunstâncias.
Mais do que rebater tetos é importante saber porque os governos não se empenham para o "mercado" não se aproveite. Se é preciso ajustar para limitar ou evitar abusos, que se faça, mas à custa de deitar por terra um sistema que deveria honrar os residentes na Madeira.

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