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Terapia irónica



O recente lançamento da 'Bordaterapia' procura vender uma imagem idílica de bem-estar, e tradição. Mas a realidade não será bem assim. A realidade da atividade das mulheres que sustentam esta arte está longe de ser uma terapia, antes pelo contrário.

Enquanto promovem o bordado como uma experiência imersiva para turistas, a profissão de bordadeira continua mergulhada num ciclo de precariedade, problemas de saúde e invisibilidade. Chamar terapia ao bordado pode ser visto como um insulto às mulheres que dedicam décadas da sua vida a esta atividade, classificada legalmente como profissão de desgaste rápido, com reforma antecidade em relação ao comum dos trabalhadores.

Fonte de patologias 

O que para o turista pretendem que seja um momento de lazer, para a profissional é uma fonte de patologias físicas. O trabalho exaustivo de proximidade, muitas vezes realizado em condições de iluminação precária nas zonas rurais, resulta em:

Danos visuais irreversíveis: A fadiga ocular extrema, com foco em pontos minúsculos por 6-8 horas diárias, leva a uma perda precoce de acuidade visual e necessidade de óculos precoces;

Lesões musculoesqueléticas: A postura rígida e curvada – sentada com o tecido no colo ou mesa baixa – provoca problemas crónicos na coluna, ombros e pescoço, agravados por movimentos repetitivos;

Doenças ocupacionais: Síndrome do túnel cárpico e tendinites são a regra, não a exceção, numa profissão que exige precisão minuciosa e gera calos e rigidez articular após centenas de horas por peça.

Para quem borda por subsistência, a agulha não é um instrumento de relaxamento, mas sim uma ferramenta que consome a saúde em troca de rendimentos baixos.

Produto turístico...

A iniciativa foca-se na valorização do produto turístico diferenciador, mas esquece-se de valorizar mais o ser humano por trás do tecido de linho. Atente-se que a estrutura do setor continua a basear-se numa disparidade evidente: bordadeiras recebem uma ínfima percentagem do preço final, enquanto fábricas e intermediárias capturam o resto num setor a valer mais de meio milhão de euros anuais.

Algumas operam em regime de informalidade ou com proteções sociais mínimas, complementadas por subsídios que o próprio Governo chamou de "injustiça brutal".

Desfasamento

Levar o bordado para a Fajã dos Padres ou Museu de Arte Sacra como um espetáculo para visitantes tende a optar pela turistificação de um sofrimento real. É uma gestão de expectativas que privilegia o olhar do estrangeiro em detrimento da dignidade da trabalhadora local – num setor com média etária superior a 50 anos, onde jovens fogem pela falta de paciência e retorno baixo, ameaçando extinção nos tempos vindouros.

Se o Bordado Madeira é um elemento identitário, essa identidade está a ser construída sobre exploração. A verdadeira valorização não passa por criar novas formas de afirmação do destino, mas sim por salários justos e que a inovação reparta equitativamente os valores gerados.

A 'Bordaterapia' pode ser vista, no fundo, um conceito assente em pés de barro: uma terapia para quem observa, e uma desconsideração por quem executa.

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