Últimas notícias

Terapia irónica



O recente lançamento da 'Bordaterapia' procura vender uma imagem idílica de "bem-estar" e "tradição". Mas a realidade não é assim. A realidade da atividade das mulheres que sustentam esta arte está longe de ser uma terapia, antes pelo contrário.

Enquanto promovem o bordado como uma experiência imersiva para turistas, a profissão de bordadeira continua mergulhada num ciclo de precariedade, problemas de saúde e invisibilidade. Chamar "terapia" ao bordado pode ser visto como um insulto às mulheres que dedicam décadas da sua vida a esta atividade, classificada legalmente como profissão de desgaste rápido, com reforma aos 60 anos após apenas 15 anos contributivos.

Fonte de patologias 

O que para o turista é um momento de lazer, para a profissional é uma fonte de patologias físicas. O trabalho exaustivo de proximidade, muitas vezes realizado em condições de iluminação precária nas zonas rurais, resulta em:

Danos visuais irreversíveis: A fadiga ocular extrema, com foco em pontos de 1-2 mm por 6-8 horas diárias, leva a uma perda precoce de acuidade visual e necessidade de óculos precoces;

Lesões musculoesqueléticas: A postura rígida e curvada – sentada com o tecido no colo ou mesa baixa – provoca problemas crónicos na coluna, ombros e pescoço, agravados por movimentos repetitivos;

Doenças ocupacionais: Síndrome do túnel cárpico e tendinites são a regra, não a exceção, numa profissão que exige precisão minuciosa e gera calos e rigidez articular após centenas de horas por peça.

Para quem borda por subsistência, a agulha não é um instrumento de relaxamento, mas sim uma ferramenta que consome a saúde em troca de rendimentos baixos – como os €2-5 por hora efetiva face a peças que vendem por €50-500.

Produto turístico...

A iniciativa foca-se na "valorização do produto turístico diferenciador", mas esquece-se de valorizar o ser humano por trás do pano de linho. Atente-se que a estrutura do setor continua a basear-se numa disparidade evidente: bordadeiras recebem 20-30% do preço final (ex: €20-30 num lenço de €150), enquanto fábricas e intermediárias capturam o resto num setor de €500.000 anuais (2024).

Algumas operam em regime de informalidade ou com proteções sociais mínimas, complementadas por subsídios que o próprio Governo chamou de "injustiça brutal".

O pagamento por ponto industrial (85% dos reais), de €0,88-€3,34/100 pontos, permanece anacrónico face às centenas de horas investidas.

Desfasamento

Levar o bordado para a Fajã dos Padres ou Museu de Arte Sacra como um espetáculo para visitantes tende a optar pela "turistificação" de um sofrimento real. É uma gestão de expectativas que privilegia o olhar do estrangeiro em detrimento da dignidade da trabalhadora local – num setor com média etária superior a 50 anos, onde jovens fogem pela falta de paciência e retorno baixo, ameaçando extinção em 10-15 anos.

Se o Bordado Madeira é um "elemento identitário", essa identidade está a ser construída sobre exploração. A verdadeira valorização não passa por criar "novas formas de afirmação do destino", mas sim por salários justos, fim do regime de agentes com comissões e inovação que reparta equitativamente os valores gerados.

A 'Bordaterapia' é, no fundo, um conceito assente em pés de barro: uma terapia para quem observa, e uma desconsideração por quem executa.

Sem comentários