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Mirpuri, o homem que abriu caminhos para a Madeira

Paulo Mirpuri (à direita) e o irmão Carlos Mirpuri, um reptado comandante da Hi Fly

Tive o privilégio de entrevistar e conversar com Paulo Mirpuri algumas vezes. Em uma delas abriu-me a porta dos bastidores da Air Luxor, em Lisboa, onde faziam o grande trabalho para que a companhia que criou operasse com sucesso.
Vem isto a propósito do líder da Hi Fly, que sucedeu à Air Luxor, ter partido para uma viagem para a qual não é necessário aviões e para a qual ninguém quer embarcar.
Paulo Mirpuri, médico, piloto, empresário, e filamtropo, foi a figura central e o rosto da Air Luxor, sendo o principal estratega por trás da expansão da companhia e do seu impacto direto no mercado da Madeira.
O seu papel foi fundamental para transformar o panorama da aviação civil em Portugal no início do milénio, no ano 2000, posicionando-se como uma alternativa privada de peso às transportadoras estatais.
O gestor posicionou a transportadora como o principal desafio ao domínio da TAP Air Portugal.


Revolução na linha da Madeira


Foi sob a sua liderança que a companhia avançou para as rotas regulares entre Lisboa e o Funchal. Mirpuri defendia que o arquipélago não podia estar refém de uma única transportadora, e a sua insistência nesta rota foi o que permitiu aos residentes madeirenses ter, pela primeira vez, uma alternativa privada consistente.

Mirpuri introduziu uma mentalidade mais flexível e comercial. Percebeu que a Madeira tinha um potencial misto, como a necessidade dos madeirenses viajarem para o continente a preços acessíveis e capacidade de trazer passageiros de luxo ou de pacotes de férias diretamente da Europa.

Antes da liberalização plena e da entrada das low-cost, a companhia introduziu uma política de preços mais agressiva, o que forçou uma descida generalizada do custo das passagens aéreas e aumentou a oferta de lugares num mercado historicamente caro e limitado.

Para isso, utilizou uma frota moderna e investiu numa imagem de marca que tentava equilibrar o serviço de uma companhia de bandeira com a agilidade de uma empresa privada.

Air Luxor na Madeira

A imagem da Air Luxor era facilmente reconhecível na placa do aeroporto da Madeira pelos seus aviões modernos para a época, como os Airbus A320 e A321. Em certos períodos, chegou a operar aeronaves de maior dimensão, como o Airbus A330, em rotas de maior densidade ou ligações sazonais.

Pressão competitiva


A importância de Paulo Mirpuri para a região residiu na pressão competitiva. Ao colocar aviões da Air Luxor a pernoitar na Madeira e a operar horários convenientes para negócios, forçou o mercado a reagir.

Esta agressividade comercial beneficiou os madeirenses e o setor do turismo na ilha, que viu um aumento do fluxo de visitantes fora dos canais tradicionais dos operadores turísticos rígidos.

Mas, passados uns anos, deu-se o colapso da Air Luxor. Corria o ano de 2006.

A companhia enfrentou graves dificuldades financeiras e operacionais que culminaram na suspensão das suas licenças de voo pelo INAC (Instituto Nacional de Aviação Civil).

A sua saída deixou, temporariamente, um vazio na concorrência aérea para a Madeira, que só viria a ser preenchido mais tarde com a entrada de novas operadoras e a consolidação do modelo de baixo custo.

Mas deixou um legado, a Air Luxor é recordada na Madeira como a companhia que "abriu caminho" para uma nova era de mobilidade, desafiando o monopólio das rotas domésticas e facilitando o acesso da população ao continente e vice-versa.

Hi Fly


Não obstante, Paulo Mirpuri não abandonou o setor. O conhecimento e a experiência adquiridos com a operação na Madeira e noutras rotas internacionais serviram de base para a criação da Hi Fly, uma companhia especializada em wet leasing (aluguer de aviões com tripulação).

Embora a Hi Fly não opere voos regulares para a Madeira como a Air Luxor fazia, a empresa continua a ser uma presença frequente no aeroporto da Madeira, muitas vezes subcontratada por outras companhias para assegurar voos em períodos de grande procura ou para substituir aeronaves com problemas técnicos.

Por tudo isto, não queremos deixar de vincar que Paulo Mirpuri foi o impulsionador de uma revolução silenciosa nos céus da Madeira, provando que era possível uma operadora privada portuguesa competir com os gigantes do setor, deixando um legado de maior liberdade de escolha para os passageiros da ilha.

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